TUDO É HISTÓRICO

O que acho maravilhoso nesta área do conhecimento é que tudo é explicitamente relativo. A História é uma arma letal contra a ditadura da verdade absoluta, fatídica.

 

 

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Surtos e Epidemias na história do Brasil

 

Na luta pela vida, homens e microorganismos travam batalhas desde tempos imemoriais. Apesar das grandes baixas entre as hostes humanas, estes veem sobrevivendo e se firmando. No Brasil essa guerra começa praticamente com o inicio de sua história oficial e não tem data pra acabar.

A história colonial está coalhada de relatos de epidemias, que fizeram grandes estragos em particular nas populações indígenas: estima-se em três milhões os índios vitimados por doenças infecciosas, até fins do século XIX. Epidemias atingiram também brancos e mestiços nos locais de grande concentração humana, como Recife, São Vicente (1561), Salvador (1562/63, primeira epidemia de varíola), São Paulo (1549/54). Em 1570, chegava à costa a "nau das órfãs" por transportar uma grande quantidade de meninas que haviam perdido os pais durante a peste que assolou Lisboa. Assim, desembarcaram nos portos brasileiros a rubéola, a varíola, o sarampo e a varicela, que os nativos chamaram de catapora, fogo que salta. Exportada das regiões africanas subsaarianas, segundo estudiosos, a febre amarela e a malária chegavam à América. Em 1685 ocorria o primeiro surto de febre amarela no país.

Em 1850 o Rio de Janeiro foi palco de uma epidemia de febre amarela, que ceifou pelo menos 4100 vidas. Mas há quem afirme que este número teria atingido a casa dos 15 mil, entre eles o político Bernardo Pereira Vasconcelos.
Em 1855, o litoral sofreu o ataque de um novo inimigo, a cólera, vinda da América do Norte e Central. Na Bahia, a epidemia causou verdadeiro pânico, pois devido às condições favoráveis à disseminação, a doença matava de oito a dez pessoas por dia. Balanço final, a província da Bahia havia perdido cerca de 36.000 vidas.

Já no século XX, a gripe espanhola ( que na verdade era norte-americana) matou milhares de pessoas entre outubro de 1918 e março de 1919, em todo o mundo. Os números oficiais falam em 35.240 óbitos em todo o Brasil. No Rio de Janeiro, os mortos chegaram a 17 mil e só na capital paulista, 5.429. Dentre os mortos estava o recém eleito presidente da República Rodrigues Alves.

Na primeira metade da década de 1970, como relata Conceição Lemes, uma epidemia por meningite por meningococo, ou meningite meningocócica, explodiu no Brasil. Vivia-se o período mais violento da ditadura. Foi o auge da repressão, da tortura e da censura. No comando do governo, o general Emílio Garrastazu Médici.
Os números sobre meningite no País naquele período são precaríssimos. Em 1974, de acordo com registros disponíveis no Ministério da Saúde, existiriam 19.396 casos; nenhum óbito catalogado. Nem de longe retratam a realidade.

"Só em 1974, no município de São Paulo, foram 12.330 casos; uma média de 33 por dia", afirma o médico epidemiologista José Cássio de Moraes, professor-adjunto do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Santa Casa de São Paulo. "No mesmo período ocorreram cerca de 900 óbitos."

 

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DOSSIÊ VESTIBULAR – HISTÓRIA DO BRASIL

 

 

Considerando  os vestibulares da FUVEST, UNICAMP,VUNESP, de 1983 até janeiro de 2008.

Período colonial (1140 a 1822) foi contemplado com 29,18%  das perguntas.

Período do Império (1822 a 1889) teve 22,39% das perguntas.

Período da República (1889 a 1985) teve 37,99% das perguntas.

 

Cronologia

No Período Colonial as perguntas concentraram-se no período 1530/1720 (cerca de 50%)

No Período do Império, a concentração maior localiza-se nos anos 1840/1889 (II Império), com 70,22% das perguntas.

Na República, a concentração maior das perguntas acha-se diluída entre o período da República Velha (1889/1930), com 37% e na Era Vargas e República Populista (1945/64), com 40%.

 

Assuntos

Quando observamos os assuntos, os referidos vestibulares dão preferência, no Período Colonial, à economia e sociedade açucareira, à tributação na mineração e à primeira fase do processo de Independência  (1789/1822)

Quando as questões se referem ao Período do Império as preferências são o I Reinado, o Quadro Econômico no II Império e a Crise do Império.

Quanto aos assuntos preferidos do Período Republicano, o Poder Oligárquico e suas características, assim como  a Crise da República Populista e os primeiros anos da Ditadura Militar (não deixe de ler o artigo abaixo!) ocupam as primeiras posições. Aparece em segundo lugar o Estado Novo, a ditadura Vargas (1937/45).

 

 

 

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AS FONTES DA HISTÓRIA

 

"Hoje temos um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular, que está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social - realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama.
O Brasil de nossos dias é um país que deseja e precisa permanecer em paz, para que possa continuar a progredir. Um país onde o ódio não viceja, nem há condições para que a violência crie raízes."

Editorial da Folha de São Paulo (22/09/1971) assinado por Octavio Frias de Oliveira

 

A imagem legada às gerações futuras por esse documento-fonte contrasta de forma escandalosa com o Brasil daqueles tempos da Ditadura. Particularmente num momento em que a violência, a tortura e o assassinato praticados pelos órgãos policiais e militares, e mesmo grupos de civis ligados ao poder produziam centenas de mortos, incapacitados e desaparecidos. Num momento (1975) em que uma pesquisa do IBGE constatava que dois terços da população padecia de desnutrição.
Por outro lado, é um alerta para o historiador.


O que são as fontes em história? São todos aqueles objetos, materiais ou não, produzidos pelos homens e que marcam sua passagem. É através deles que o historiador em seu oficio investigativo busca informações sobre o assunto que procura conhecer.
As fontes disponíveis são de uma variedade imensa. Pode ser um material escrito (livro, jornal, diário etc.), uma imagem (foto, pintura, desenho etc.), ou ainda uma música, uma dança, uma comida...
Qualquer fonte é passível de fornecer informações as mais indispensáveis e importantes, mas pode também levar ao erro, a uma idéia destorcida sobre pessoas e situações e acontecimentos. Tudo depende de como é tratada pelo historiador, afinal ela não é um elemento neutro, pelo contrário, é produto da ação de homens ou mulheres que pensam, têm desejos, necessidades e interesses, e esses darão cores e matizes variados àquilo que eles produzirem, seja uma carta ou uma escultura. Uma música ou um livro.

No que diz respeito aos produtos da imprensa, lembro-me certa vez de uma entrevista com o velho dirigente da imprensa, Ruy Mesquita, proprietário de O Estado de São Paulo, onde perguntado sobre a neutralidade da imprensa afirmou: "Acho que um jornal neutro é um boletim de noticias. Um jornal tem caráter, tem alma, tem personalidade". Em outras palavras, nos órgãos de imprensa jornalistas determinam o que é noticia e o que não é, enfatizam fatos e nomes ou os colocam em segundo plano. Assim, um jornal ou revista, um noticiário de rádio e TV têm cor política por mais que alguns, hipocritamente, ou talvez por um moralismo enviesado pretendam posar de imparciais.

Nas palavras do jornalista Mauro Malin, não há a menor dúvida de que a mídia é facciosa, com um grau maior ou menor de consciência disso, assim como cada um de nós é faccioso. A imprensa é uma realização humana, não de máquinas, nem de deuses. O mito da imparcialidade deve ser combatido. Mas ser faccioso não equivale a ser injusto, ser canalha, ser desprovido de brio profissional, desonrar a fé pública da profissão."
Ocorre, no entanto, que em algumas conjunturas históricas assistimos exatamente a isso. A canalhice, a manipulação, a hipocrisia dominando setores da mídia em favor de certos interesses (infelizmente não confessados) empresariais e partidários.
Ao estudioso da História cabe identificar os interesses por trás de cada noticia antes de tomá-la como verdade indiscutível. Só assim, estará contribuindo para a obtenção de um conhecimento o mais amplo e mais condizente com o momento e o lugar estudado.


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CORRUPÇÃO E HISTÓRIA


Historicamente, tem-se registro de casos de corrupção que remontam à Antiguidade Clássica, sendo que a história européia, assim como de outros continentes, os registram até os dias de hoje. Quem não se lembra dos casos recentes nos EUA, na Alemanha (Volkswagen), na Itália envolvendo políticos e empresários?
Na história brasileira, os casos aparecem ainda no chamado Período Colonial, como se pode apreciar no relato (1641) do Padre Vieira ao primeiro vice-rei do Brasil, D. Jorge de Mascarenhas:

"A causa da enfermidade do Brasil,..., é a mesma que a do pecado original...: tomar o alheio, cobiças, interesses, ganhos e conveniências particulares... E senão, pergunto, para que as causas do sintoma se conheçam melhor: toma nesta terra o ministro da Justiça? Sim, toma. Toma o ministro da Fazenda? Sim, toma. Toma o ministro da Milícia? Sim, toma.... não fazem mais que chupar, adquirir, ajuntar, encher-se (por meios ocultos, mas sabidos), e ao cabo de três ou quatro anos... abrem as asas ao vento e vão chover (gastar) em Lisboa..."


A chegada da Família Real portuguesa provoca uma comichão entre os membros da elite branca colonial, excitada pelas possibilidades de alcançar benesses, títulos, comendas e cargos potencialmente disponíveis e que se traduziam em possibilidades de luxo, riquezas e prestígio a seus detentores.Claro é, no entanto que tudo isso era muito seletivo e portanto disputado a tapas, ou na troca de favores e "mimos".

"Em 1810, tendo a casa de comércio Carneiro, Viúva e Filhos emprestado 100.000 cruzados para a instalação de uma fábrica de fundição de peças de artilharia e de canos de espingardas, o Regente concedeu a Fernando Carneiro Leão, o primeiro representante desta casa, uma comenda numa das Ordens Militares e ao outro representante, Geraldo Carneiro Bellens, o foro de fidalgo na forma que já seu avô e cunhado o têm".

Também o traficante de escravos Elias Antonio freqüentou a vida palaciana. Foi nomeado Fidalgo Cavaleiro da Casa Real e recebeu o título do Conselho de Sua Majestade. O mesmo Elias havia presenteado o príncipe, em 1808, com o palácio da Boa Vista, depois Paço de São Cristóvão.

O II Império, que se inicia após uma articulação política conhecida como o Golpe da Maioridade (1840) ficou marcado pela corrupção e violência nas eleições, as vulgarizadas eleições do cacete. Mas essa não era área exclusiva da ação de corruptos ativos e passivos. Na área da propaganda, temos o caso do diplomata francês, conde de Gobineau, que recebia um pequeno "abono mensal", da ordem de 88$333, por um ano, após ter escrito artigo elogioso à administração de D. Pedro II, no Journal Officiel.
Os casos e indícios se sucedem permitindo o comentário do embaixador inglês, James Hudson, ao saber da composição do gabinete que assumia em 1848: Todo esse governo é corrupto e abominável, e não fará nada para suprimir o tráfico (de escravos) se não for coagido.

O advento da República numa sociedade cada vez mais mercantilizada vem acompanhado de uma maior burocratização do Estado, tudo contribuindo para uma maior venalização das relações políticas cotidianas.
A entrada em vigor da Constituição de 1891 trouxe a implantação do voto universal, direto e aberto. Com isso, ampliou-se a violência e a corrupção eleitorais uma vez que o controle do voto tornou-se eficiente instrumento de controle da máquina republicana. Ganhava visibilidade o chamado coronelismo e suas práticas geradoras do voto de cabresto e dos currais eleitorais.
Dos municípios, rurais dominados pelos coronéis, ao governo federal os casos de corrupção se sucedem envolvendo políticos e funcionários, como o prefeito Pereira Passos, acusado de ter "enriquecido rápida e ilicitamente" com as obras que promoveu na cidade do Rio de Janeiro, em princípios do século XX. Ou ainda, no governo Deodoro da Fonseca, onde o banqueiro Barão de Mesquita recebia favores do governo, enquanto o sobrinho do Marechal, Hermes da Fonseca, seu secretário, fazia tráfico de influência.
No transcorrer da primeira metade do século XX governos ficaram marcados por casos de corrupção, dentre os quais destacaram-se os nomes de Adhemar de Barros (conhecido como o homem da caixinha), Jânio Quadros, só para citar os mais conhecidos.
Durante a Ditadura Militar (1964-1985), ficou famoso o caso da negociata envolvendo a compra de tecnologia alemã para a construção da Usina Nuclear de Angra. E, em 1976, bastou um afrouxamento na censura no governo do general Geisel para vir à tona o escândalo das despesas do então ministro do trabalho Arnaldo Prieto, que mantinha em sua casa, em Brasília, 26 empregados e consumia, por mês, 432 kg de manteiga, 954 kg de carne, 600 kg de arroz, 1080 ovos, 440 garrafas de sucos e refrigerantes etc. Naquele momento nascia o termo mordomia!
Naquele mesmo ano era eleito presidente da Associação Comercial de São Paulo o político-empresário Paulo Maluf (um verdadeiro clássico em se tratando de corrupção), envolvido em vários escândalos. Dentre eles, quando governador do estado (1978/82), o desaparecimento de 2,7 milhões de litros de combustível da VASP, explicada por Calim Eid, seu chefe da Casa Civil, em razão da "evaporação natural", assim como o sumiço de peças de reposição, concorrências fraudulentas, falsificação contábil, distribuição de milhares de bilhetes aéreos e uso político da empresa.

Com a chamada redemocratização, cujo formato legal foi dado pela Constituição de 1988, opera-se um grande acordo político. Os envolvidos em torturas, assassinatos, corrupção etc. na época da Ditadura, ficavam impunes. Os militares voltavam para os quartéis e os civis mantinham cargos e espaço político.
Sucedem-se governos civis, políticos cúmplices da Ditadura continuam na ativa e a corrupção continua a marcar presença nos governos Sarney, Collor, Fernando Henrique, Lula.


Como se pode observar, a corrupção não é privilégio de nenhum país, de nenhum regime político, de nenhum governo, de nenhum partido. Independentemente de indivíduos honestos e não complacentes, ela estará presente no dia-a-dia como o ar que respiramos.
Por isso, historicamente, um político ou um governo difere de outro não pela associação ou não com casos, mas sim pela maior ou menor divulgação dos mesmos. Um índice, que é bom lembrar, varia segundo a época (eleitoral, por exemplo) e a força da aliança dos partidos e grupos econômicos de oposição com os meios de comunicação. Lembremos do escritor e deputado José de Alencar que teve que criar cinco jornais para responder à oposição da mídia. Ele dizia: como eu vou responder os colunistas? Eles fazem o trabalho do dono do jornal.Lembremos ainda do governo Getúlio Vargas (1951/54), quando a aliança dos jornais O Globo, Estado de São Paulo e dos Diários Associados, sem falar no jornal Tribuna da Imprensa, com a UDN, partido de oposição ao governo criou uma força de tal forma irresistível que acabou por atolar o governo Vargas no tal "mar de lama" e por fim derruba-lo. Para todo o sempre, diga-se.

Este, como outros momentos políticos, servem para que não nos esqueçamos que aqueles que, hipocritamente posam de puros e paladinos combatentes da corrupção em nome da moral e dos interesses populares nada mais fazem que manipular os incautos cidadãos para, ao denegrir os adversários, acumular dividendos políticos para si.
Talvez muitos leitores ainda lembrem, na história política recente, a marcante campanha sucessória à presidência, em 1989, na qual, em meio a bravatas e em estilo teatral, o candidato Fernando Collor fazia ao então governo Sarney sérias acusações de corrupção enquanto posava de campeão no combate aos "marajás". Naquele momento, quem poderia imaginar que era apenas jogo político na disputa pelo poder. Ainda bem que temos a História para assoprar a bruma que nos embaça o olhar.

 

Atualização (11/02/2007):  Leia também artigo de Mauro Santayanna  AQUI

 

 

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FRAUDE  E  PODER

 

Ao final do ano passado chamou-me a atenção a noticia de que a Polícia Federal, após 18 meses de investigação, ocorrida depois do STF ter arquivado o caso, comprovou ter sido fraude o Dossiê publicado pela revista Veja em maio de 2006.
O tal dossiê acusava altas figuras da política nacional, entre eles quatro ministros e o próprio presidente Luis Inácio Lula da Silva de manterem altos valores em contas no exterior.
Para um observador que acompanha a história política do Brasil nenhuma surpresa, afinal este é apenas mais um caso em que meios ilícitos são usados na briga pelo poder.
Nessa briga, políticos, grupos ou Partidos armam-se de variados instrumentos utilizados nos momentos mais convenientes. De há muito faz parte do arsenal na luta pelo poder desde alianças abertas, ou espúrias, assim como o uso da violência e da corrupção, usados à mancheia nos tempos da chamada República Velha, mas não totalmente em desuso nas décadas que se seguiram. Há ainda a manipulação de sentimentos e informações, principalmente através dos meios de comunicação de massa.
Sem descartar o Golpe de força, também a fraude, uma espécie de golpe branco, de há muito é uma arma bastante usada nas rinhas políticas de nossa história.

Andei atrás desse "personagem" e, atendo-me ao século XX, levantei alguns casos de marcantes e comprovadas fraudes que povoaram a história brasileira.

 

Durante o Governo Epitácio Pessoa (1919/1922), transcorria a campanha para as eleições sucessórias na qual já se vislumbrava mais uma vitória das oligarquias de São Paulo e Minas Gerais.
Diante do praticamente inevitável, oligarquias dissidentes (de Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro) articulam uma aliança e criam a Reação Republicana apoiando a candidatura de Nilo Peçanha, em oposição ao candidato do Café com Leite, Artur Bernardes.
Na disputa pelo poder, tendo um adversário apoiado num forte poder econômico e político, a oposição não dispensou o uso da fraude golpista, que ficou conhecida como o caso das "Cartas Falsas".
Forjadas por Oldemar Lacerda e Jacinto Guimarães, as cartas entraram em cena no dia 9 de outubro de 1921, quando o Correio da Manhã (alinhado com a oposição) publicou uma delas, supostamente escrita por Bernardes com injúrias ao Marechal Hermes da Fonseca e críticas aos militares: "essa canalha precisa de uma reprimenda para entrar na disciplina".
Com a publicação de uma segunda carta, no dia seguinte, Bernardes manifesta-se e nega veementemente a autoria, mas acede a que uma comissão com peritos façam uma análise dos documentos. E em dezembro a comissão concluiu pela veracidade dos mesmos.
A idéia de indispor o candidato situacionista com os militares estava dando certo, a campanha eleitoral tornou-se ainda mais tumultuada e conflituosa e alguns mais afoitos chegaram a defender medidas de força. Mas ao cabo, as máquinas partidárias funcionaram a contento no pleito de março de 1922, fazendo ver desde o início a vitória de Bernardes.
Pouco depois das eleições, Oldemar Lacerda e Jacinto Guimarães confessaram a autoria das "cartas falsas".

 

Alguns anos depois, vivia-se sob o governo de Getúlio Vargas. Em 1934 este fora eleito pela Assembléia Constituinte que entregara, um dia antes, uma nova Constituição ao país. Inspirada da Constituição alemã de 1919, a nova Carta vestia a nação com uma roupagem democrática já que garantia ao cidadão uma série de liberdades e direitos políticos.
Essas liberdades, por certo estimularam a atuação de organizações políticas desejosas de alçarem-se ao poder nas eleições previstas pela Constituição, ou mesmo através da força, se mais conveniente.
A agitação política resultante da intensa atividade da Ação Integralista Brasileira e da Aliança Nacional Libertadora claro preocupava o governo Vargas e seu projeto de poder. E a gota d'água foi a tentativa de um golpe armado levado a cabo pela ANL, em novembro de 1935, a denominada Intentona Comunista.
Apesar de frustrada pela ação dos órgãos policiais e militares, o governo entendeu que ali se abria o momento de reagir e reforçar as muralhas do poder.
Agitando a bandeira do perigo vermelho, o governo Vargas dava inicio, já no alvorecer de 1936, a uma campanha terrorista a embalar um acobertado golpe contra as instituições uma vez que justificaria ações governamentais insuspeitamente voltadas à proteção das famílias e do Estado contra a ameaça comunista.
Assim, decretou-se o Estado de Guerra, jornais foram fechados, cidadãos foram presos, militares legalistas foram afastados. Mas a articulação golpista só atinge o auge com a fraude. Em 30 de setembro de 1937, era apresentado à nação um suposto plano comunista, descoberto graças ao "trabalho investigativo dos órgãos de segurança do Estado". Chamado Plano Cohen, revelava a suposta intenção dos comunistas em criar condições para a tomada do poder, através da eclosão de greves, incêndios, saques e fuzilamentos.
Elaborado, na verdade, pelo capitão Olympio Mourão Filho, o tal plano, criava um clima de pânico na sociedade brasileira, justificando a suspensão do processo eleitoral e a reedição do Estado de Guerra pelo Congresso em outubro.
Com poderes excepcionais, Getúlio, em 10 de novembro, fecha o Senado e a Câmara, dirige-se à nação através de um pequeno discurso e em seguida vai com a esposa a uma recepção diplomática. Estava implantada a ditadura do Estado Novo.
E na maior caradura, o político mineiro, Benedito Valadares comentou, em suas Memórias: "É interessante observar o ser possível fazer-se uma revolução (sic), às claras, sem o povo desconfiar. É que ela partia do governo, que estava acima de qualquer suspeita."

 

Após ter amargado uma derrota eleitoral em 1954, a União Democrática Nacional (UDN) preocupava-se com o pleito de 3 de outubro de 1955 à sucessão presidencial. Ali estava plantada a chance de ascender ao topo do poder, já que com a morte de Vargas, em 1954, o getulismo estaria acéfalo e fraco.
Com o intuito de minar a candidatura do mineiro Juscelino Kubitschek (PSD) e do candidato a vice, João Goulart (PTB), sucessor político de Vargas, no dia 17 de setembro de 1955, Lacerda, líder da UDN, publicou na Tribuna da Imprensa, uma carta datada de 5 de agosto de 1953 e dirigida a Goulart, naquela época ministro do Trabalho. O documento, cujo suposto autor era o deputado argentino Antônio Jesús Brandi, ficou conhecido como Carta Brandi e relatava os entendimentos secretos que Goulart teria mantido com Juan Domingo Perón, então presidente da Argentina, no sentido da implantação no Brasil de uma república sindicalista, bem como a existência de contrabando de armas argentinas para o país.
Era fraude, mas antes de uma comprovação o general Lott, atendendo à solicitação de parlamentares petebistas, ordenou a abertura de um inquérito policial-militar (IPM), que foi chefiado pelo general Emílio Maurel Filho. Os primeiros resultados da sindicância efetuada em Buenos Aires não chegaram a pesar em termos eleitorais, por terem sido divulgados no dia exato do pleito.
A fraude, porém, só seria devidamente esclarecida quando, ao final da sindicância, foi comprovado que a carta havia sido forjada.

Outros casos ainda ocupam as páginas da história. Alguns ainda dependendo de maiores investigações para comprovar sua autenticidade, como o alegado atentado a Carlos Lacerda em agosto de 1954, conhecido como o Crime da Rua Tonelero. E páginas em branco ainda esperam para gravar prováveis novas fraudes políticas.

 

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Teatro Municipal, 1911
Teatro Municipal, 1911

São Paulo à Noite: lazeres e prazeres

 

 

Década de 1880, a cidade tem recebido um número crescente de “visitantes”. São alunos da Faculdade de Direito, capitalistas fechando negócios, acertando contatos em repartições públicas, articulando acordos políticos. Constituem-se num mercado consumidor em expansão também para os negócios do amor e do prazer, que, portanto, vive uma fase de crescimento e euforia.

Ao entardecer, enquanto as “famílias de bem” começavam a recolher-se, “acordava” o mundo da noite, o mundo do prazer aristocrático povoado de "coronéis", de jovens abastados, a dita  "jeunesse dorée", e até mesmo do "rastaquouère", o novo rico, sem tradição. Todos saindo em busca de diversão, amor e prazer nos cafés-concertos, nas "pensões alegres", junto às "cocotes de alto coturno", prostitutas de fama, pela beleza e pelos conhecimentos das técnicas do amor.

Este mundo - que coexiste com o da prostituição rasteira e barata da Líbero Badaró, da travessa do Quartel (mais tarde Onze de agosto, depois desaparecida) ou da rua do Theatro (depois Irmã Simpliciana, posteriormente absorvida pela Praça João Mendes) - expande-se a partir dos últimos anos do século como desdobramento das mutações socioeconômicas por que passa a capital e também produz mudanças de comportamento.

A partir daqueles anos a cidade a cada dia vai dormir mais tarde. “Junius”, em 1882, já  chamava a atenção para este fato ao relatar o passeio que fez com um amigo pelas “ruas principaes: São Bento, Direita e do Rosário.”

 

 (Ali viram) vitrinas e entraram em restaurants  e cafés, como o Café Americano (onde ficaram) quasi uma hora conversando e ouvindo peças de seis músicos italianos. (Tudo muito diferente de 30 anos atrás quando) por estas ruas   à noite não se encontrava uma viva alma...as lojas fechavam cedo, apenas as boticas conservavam-se abertas; a iluminação era péssima..." [1]

                         

Contribuiu também para este alargamento da vida noturna da cidade a intensificação da atividade cultural e artística que se operou a partir das duas últimas décadas do século dezenove.

 

Estabelecida a ligação ferroviária entre São Paulo e o porto de Santos em 1867 e completada a ligação com o Rio de Janeiro em 1877, cresce substancialmente a presença na cidade de companhias teatrais européias que até então restringiam suas excursões à Côrte devido à grande dificuldade de atingir a capital paulista.

Companhias famosas da Côrte, como a de Sousa Bastos, a de Heler ou a de Guilherme da Silveira passaram a apresentar-se com certa constância na cidade. E até mesmo aquelas companhias estrangeiras, como a do Real Teatro Dona Maria Segunda, de Lisboa ou as italianas Marchetti e Scognamiglio Caramba.

Nessas ocasiões a capital atraia gente das cidades vizinhas e vivia noites de agitação, como descreve Everardo Valim de Sousa :

 

"...Nas noites de grandes espetáculos, deslumbrante mostrava-se todo o ambiente da vasta sala, cuja completa lotação pertencia ao escol das sociedades paulistanas, santista, campineira e jundiaiense, porquanto de fora vinham para aqui famílias abastadas, assistir à artística temporada." [2]

               

Essas noites aristocráticas aconteciam no teatro São José ou então no Santana, que despontavam como grandes casas de espetáculos quando comparados com o Minerva, o Paulistano e outros. Por essas casas passaram grandes nomes internacionais do drama, da comédia e do canto lírico como Enrico Caruso, Sarah Bernhardt e Eleonora Duse. Nessas ocasiões, as famílias de posses afluíam para o centro da cidade, que então se alterava. Os botequins e cafés-concerto permaneciam abertos até mais tarde alterando, inclusive, o transporte coletivo, que mudava seus hábitos e se engalanava. Em suas memórias Jorge Americano nos revela que:

 

"Ao sair dos teatros, enfileiravam-se bondes da Companhia Viação Paulista, puxados a burros.Não eram como os usuais.

Levando em conta que as senhoras e moças vestiam 'cassa' ou sêda, os bancos eram vestidos com capa de linho branco, e também sobrecapas nos encostos. Eram chamados 'bondes de camisa'.

Não apurei se havia um ou mais em cada bairro, para ir de casa ao teatro. Penso que as famílias iam de carro (puxados por cavalos), e os bondes eram para a volta.

Gente de categoria mandava que o carro esperasse para voltar. Gente de maior categoria tinha carro próprio." [3]

   

 



[1] Junius. Notas de Viagem. Pp.107 a 110

[2] Citado em Bruno, E.Silva, Op. cit. p.101

[3] Americano, Jorge. São Paulo Naquele Tempo, p.250.

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